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terça-feira, 6 de julho de 2010

O Anacronismo da VEJA e a “Geração Tolerância”


Para todos que leram a matéria da revista VEJA “A Geração Tolerância”, no exemplar de 12 de maio deste ano, não se espantem – o jornalismo brasileiro consegue escrever páginas ainda melhores (ou seriam piores?). Se vocês foram capazes de chegar ao final da reportagem sem se indignar, sem levantar qualquer dúvida (uma que seja) ou ainda com um belo sorriso no rosto, não se preocupem – a argumentação é... saltitante! Sim, aos pulos a jornalista apresenta os depoimentos da garotada, pincela algumas pesquisas, acrescenta trechos de especialistas (a pesquisa é “profunda”: contamos com um trecho de um psicólogo, um sociólogo e um antropólogo) e, de quebra, ela critica os militantes de 30 anos e os guetos gays. Uma verdadeira ginástica mental! E para aqueles que não leram a revista... Bom, não percam seu tempo.

Claro, a reportagem não poderia partir do nada. É evidente que esta geração lida de forma diferente com a homossexualidade: afirmar sua sexualidade, apesar de todas as dificuldades, é cada vez mais comum. Mas quando falo “esta geração” estou justamente me referindo aos estudantes escolhidos pela revista. Para quais segmentos da sociedade os preconceitos não existem? Por que e onde eles foram dizimados? Bom, mesmo eles não parecem desfrutar da liberdade tão amplamente defendida pela revista: o casal Victor e Luiz Fernando são “discretos”, o máximo que se permitem em público é andar de mãos dadas, “às vezes”.

E mais, contra “a geração tolerância” são lançadas as bandeiras do direito gay. Todo tipo de militância afundaria num no sense apenas por não saberem como “sair do armário”. O método é claro e preciso: “não ter preconceitos para consigo mesmo”. Na verdade, o que está posto nas entrelinhas da reportagem é um preconceito que não se estrutura social e historicamente, mas que deve ser resolvido individualmente. Logo, todos já para as suas casas ou consultórios médicos e comecem suas mudanças por lá mesmo!

Embora as notícias sejam muito boas, quase idílicas, há duas semanas um jovem gay de 14 anos, Alexandre Ivo, morreu após ser espancado por um grupo de homens. Os fatos indicam que foi um crime doloso, ou seja, houve a intenção de matar o jovem (ou deveríamos falar em extermínio?). Graves lesões no crânio, asfixia mecânica e enforcamento. O delegado titular Geraldo Assed afirmaria no jornal O São Gonçalo, de 24 de junho, que “esse grupo já tem um histórico conflituoso de homofobia”. Ironicamente, Alexandre poderia figurar entre os jovens estudantes que participaram da mencionada reportagem. Mas, ora, este tipo de fato não poderia constar em suas páginas: é de ruir o sono de toda a classe média.